quinta-feira, 6 de junho de 2013

Vidas, passados e presentes que serão passados.

Quando pensei em escrever, já estava com os dedos trabalhando. Antes eu não pensei em escrever, aliás, em quê estou pensando agora? Ah, estou pensando em mim, mais especificamente em minha vida. Será que tomei as decisões certas? Será que as oportunidades que eu não agarrei me reservavam melhores momentos? Enfim, não quero mais pensar nisso. Afinal, o que posso fazer agora? Ir em frente? Mas, isso é o que todos fazem. Eu vou continuar aqui, parada nesse mesmo lugar até o final. Continuarei comendo as mesmas coisas, ouvindo as mesmas canções, falando com as mesmas pessoas e indo aos mesmos lugares. Mas, assim eu vou deixar de viver? Acho que sim, que monótono isso de não fazer nada de novo nunca. Eu até posso experimentar coisas novas, músicas novas e pessoas novas. Posso sim! Isso! É o que eu farei. Mesmo que eu ainda pense no passado, estarei vivendo o presente? Também acho que sim, o passado foi feito pra isso mesmo. É, mas já foi presente um dia. Então, tudo se resume a criar um belo passado para se lembrar um dia? Disso eu tenho certeza. Eu não gosto nada dessa ideia de eu ser uma lembrança um dia e que, com o passar do tempo, eu serei apagada e fim. Você está satisfeito com o passado que está criando? Tem amor lá? Será que eu posso ir lá quando eu quiser, por que eu sempre desejo estar por lá. Posso?

segunda-feira, 11 de março de 2013

Nostalgia.

Eu gostava de como eu parava para tirar fotos, gostava quando eu eu tinha os piores almoços do mundo, quando eu era surpreendida, quando eu sentia meu sorriso iluminar, quando eu saía e ia ser feliz. Não que hoje eu não pare para me fotografar ou que eu não seja mais feliz, eu gostava de antes. Agora, eu gostava de antes. Quantas pessoas estavam comigo todos os dias, ou na maior parte do tempo, e hoje nem falam mais comigo? Quantas coisas bobas eu já parei de fazer, por não ter mais quem me desse atenção? Quantas vezes eu me policiei para não chorar e acabei fingindo ser forte? Quantos anos se passaram? Quantas horas? Quantos sonhos partiram e, sem virarem realidade, me partiram ao meio? Quantas, quantos? ... Por mais que se tenha passado o tempo e eu sinta falta de quase tudo que foi feito, eu gosto de como o tempo passa. Gosto de como o tempo me traz novos sorrisos e lágrimas. Gosto de como o tempo me faz parar para refletir sobre o tempo. O meu tempo, o nosso tempo. O tempo que nunca tivemos e sempre foi nosso, o tempo que já se foi.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Vontade de tu

Saudade danada
vontade de tu
Fulô de caju
ficou teu perfume
Sou teu vaga-lume
na noite perdido
Por ter confundido
sorrisos tamanhos
Teus olhos castanhos
de sol manhecendo
Teus ventos correndo
a revolução
É meu coração
bandeira vermelha
De sangue assemelha
a cor que desfraldas
É quando me maldas
com tanta distância
A tua flagrância
persiste o caminho
Que sigo sozinho
depois que partistes
Por mais que conquiste
pareço ter nada
Nessa caminhada
que sigo sem tu
Fulô de caju
saudade danada

Nilton Junior

terça-feira, 5 de março de 2013

Flores e céus.

Haviam flores em sua mão. Quando ela foi se encontrar com ele, haviam flores em sua mão. Ela as havia colhido naquela manhã mesmo, estavam com um ótimo cheiro e uma cor viva de gema de ovo. Em um jarro no canto de seu terraço haviam flores amarelas, perfumadas e belas. E ela foi se encontrar com ele no lugar de sempre: numa lanchonete antiga, numa rua antiga de um bairro antigo e que tinha uma varanda antiga que dava para ver um novo céu (sempre). Além das flores ela carregava uma bolsa e um sorriso, na bolsa haviam livros e no sorriso paixão. Calçava os mesmos sapatos de ontem e um vestido amassado que quase nunca usava, era lindo - com flores e corações. E lá estava ele, chegava primeiro sempre e se sentava no mesmo lugar. Ele sempre pedia um café puro e meio frio, abria qualquer página de qualquer jornal e fingia ler. Fingia estar distraído quando ela entrasse no lugar, para que ela notasse que ele deixava de fazer o que estava fazendo só para olhá-la. Ele era lindo! Dentes perfeitos, cabelo impecável e exalando sempre um cheiro carinhoso que a prendia. Ela adorava o jeito em que ele levantava para puxar a cadeira para que ela sentasse, achava lindo quando ele pegava em sua mão e depois gritava ao garçom um suco de laranja - que era o preferido dela -, odiava quando ele voltava a ler o jornal, mas ele sempre se distraia com o barulho que ela fazia bebendo o seu suco. Mas, ele não puxou a cadeira pra ela. Não desta vez. Ela olhou para o céu, constrangida e no momento em que baixou sua cabeça, para puxar o seu próprio assento para perto de si e sentou, olhou para o céu novamente e viu que ele já havia mudado as formas de suas nuvens. Naquela tarde não tinha sido só o céu que havia mudado, ele também mudou. Pediu um café quente com leite, ouvia música em fones de ouvido e realmente estava distraído com aquilo. "Mas porquê ele?" - ela indagou a si mesma, pois jamais passaria em sua cabeça que aquele seu amor pudesse mudar e ser outro. Ele, como sempre, segurou a mão dela, mas não pediu o seu suco. Disse em voz tranquila que iria embora para fora daquela cidade antiga e que iria se encontrar com um novo alguém, alguém esse que o convenceu de mudar. Pediu que ela fosse forte e que a dor que ela vira a sentir ia passar logo, pois ela era sábia. Pena que ela não era mágica. Sentiu a pior dor que já havia sentido e tomou o café que ele deixara pela metade da xícara ao ir embora pela pequena porta de vidro da varanda da lanchonete. Ela não chorou, só bebeu o café quente com leite. Aquilo era a única lembrança que sobrara dele. E ainda haviam flores em sua mão, flores que ela não conseguiu entregar porque ela olhou para o céu e sentiu tudo mudar. E ela murchou com as flores, na mesma rapidez. Nunca mais colheu flores, nunca mais tomara café, nunca mais sorrisos, nunca mais amor.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

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Coloquei a margarina na panela e esperei derreter. Sabia que eu acho a melhor parte? Derreter. Acendi um incenso e peguei o saquinho novo de milho, essa é a minha noite! Antes, fui olhar como estava a noite lá fora e ela não estava lá. Triste. Eu nunca levanto da cama para ver a noite, só para ver a noite. De volta ao gesso da cozinha, uma surpresa: havia derretido tudo e eu perdi a melhor parte, você também. Sinto vontade de acender um cigarro e me deitar no chão frio de qualquer cômodo da casa. Mas eu estava com fome. Não, desejo de pipoca. Derramei, com ternura, os primeiros caroços quando notei algo estranho. E, antes de descobrir o que estava fora do comum, pequei o saco de milho e só consegui ler Mungunzá. "E esse foi o fim da minha noite" - pensei imediatamente colocando a tampa na panela (que, por sinal, não fechava perfeitamente). Depois pensei em fazer outra coisa, afinal eu tinha que viver. Foi aí que abri a geladeira e vi a jarra de suco amarelo e pensei: MARACUJÁ! - e era! Mas, a vaca da caixa de leite me olhou com aquela carinha de "eu que fiz, vai negar é?" e fiquei na duvida entre leite e maracujá. Acabei escolhendo o leite. Branca é a minha cor favorita. Preparei o melhor leite-com-nescau da minha vida, e da sua também. Você nem tomou. Terminei a noite tomando leite, sentindo o perfume dos girassóis do meu incenso e escrevendo para que depois pudesse refletir: tomei leite por falta da pipoca, será que tudo é substituível?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Corvos.

Hoje eu tive um sonho belíssimo e nele estava eu, é, somente eu. Mas, de repente e me assustando surgiram uns corvos que, mesmo negros, me ofuscaram com uma luz azul forte. Olhos ofuscados e pernas bambas. Eu nunca tinha visto tanta luz saindo de tão pequenos seres. Notei que um dos pássaros possuía uma flor amarela pela qual me interessei. Pensei em capturar a ave e, antes de libertá-la, roubar a flor para enfeitar meus cabelos um pouco curtos. Percebi que seria maldade se o fizesse e lembrei-me que eu tinha biscoitos em meu bolso e nem pensei uma vez em atirar algumas migalhas no chão. Porém, o pássaro nem sequer demonstrou interesse e continuou a me cercar no alto do quintal vazio, onde eu estava. Deitei-me no chão e me coloquei a observá-lo, lá de baixo mesmo. E eu, de um certo modo, sentia que era pessoal. Ele estava olhando para mim! Logo em seguida deduzi que ele não estava com fome, mas poderia ter sede, afinal de contas ele estava tão perto do sol. Fui correndo e voltei da cozinha com um enorme pote de água fresca recém-tirada do filtro. O curioso animalzinho pousou no pote me fazendo o sentir mais próximo de mim. Ao observar ele observando a água vi que não era aquilo que ele estava buscando. Talvez não quisesse nada (?). Ele tinha algo parecido com um papel em sua pata esquerda, o que me deixou mais ambiciosa ainda. O pássaro ficou ali no chão, bem na minha altura, porém não se deixava tomar o seu papel e nem a sua flor amarela. Tentei oferecer-lhe a sombra de uma árvore, mas ele nem sequer direcionou o olhar pra onde eu apontava contente! Eu estava sendo encarada por um pequeno ser, tão menor que eu e acabei tirando a vista. Adormeci em menos de dois minutos em que distanciei meu olhar das asas dele e quando acordei senti um peso em minha cabeça. "Já está no final da tarde" - eu disse, pois já não havia tanto sol quanto antes. Quando levei as mãos à cabeça pude descobrir porque eu estava pesada: o pássaro havia deixado algo para mim. Meus cabelos estavam repletos de pétalas amarelas e um perfume suave cobria meu corpo inteiro, em minha mão esquerda havia o papel que eu tanto havia buscado a tarde inteira. Ainda admirada com o que me rodeada, deixei de observar tudo e fui curiosamente abrindo o papel meio velho que estava em minha mão, minha enorme mão. Eu consegui decifrar algumas palavras que preenchiam aquele pedaço de papel e elas formavam o seguinte recado:
"Você precisa entender que certas coisas na vida vem quando se precisa e não quando se tem o desejo de tal coisa. Você estava prestes a receber sua pura felicidade. Demorei algumas horas para entregar-te e você, logo, a quis comprar. Você jamais poderá comprar sua felicidade! Saiba que as coisas mais puras e necessárias para se viver em paz vem com a naturalidade de seus atos anteriores a elas, tudo que vier te pedindo algo em troca é estragável e substituível. Seja feliz gratuitamente e serás para sempre."  
Acordei e vi um pequeno vulto preto se despedindo de minha janela. Suspirei e fui ser feliz.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Fome.

Um mendigo me ouvir gritar teu nome
ele nunca conheceu esse tipo de fome
Perguntou aos céus: o que é que ele come?
Mas dormiu sem saber se era bicho ou se era homem.

Acordou e me viu sentada, dividindo a mesma calçada
me sacudiu, viu que eu não estava morta só desacordada.
"Essa fome não mata" - pensou ele catando uma lata
se ela sente e não morreu, imagine eu que não sinto nada.

Acontece que antes do meio-dia, já sentíamos o vai-e-vem
as praças sem energia descontavam a raiva em alguém,
e a gente disputando um vazio que não sabíamos de quem.
Olhei para aquela esquina, vi um doce de menina, e mais ninguém.

Estávamos sós
Estávamos famintos
Ambos distintos
E corações com nós.