Eu sempre pensei que se eu caisse tentando fazer algo legal, eu esperaria sarar meus arranhões e tentaria novamente. Sempre insisti em passar de nível no vídeo-game quando eu perdia todas as minhas vidas. Quando eu tinha algo em mente para aquele dia e não acontecia o que eu queria, eu o fazia no dia seguinte sem demora. Costumo, sempre depois que perco, ganhar em dobro.
Um dia: eu estava sem ânimo para ir à minha aula de pintura em tela. Era toda terça-feira de toda, santa, semana. Lá ia eu com meu cavalete cheio de abelhas, as quais eu colecionava, e atravessava a rua segurando a mão da minha empregada. Enquanto Fátima conversava com as mães do meu curso, eu prestava atenção sem a menor vontade e pincelava a tela que havia ganho. Era uma paisagem, uma paisagem de um pôr-do-sol num rio, ao seu redor haviam casas e coqueiros enormes, acho que eram pernambucanos. Havia ma varanda na casa e a linha do horizonte eu aprendia a fazer. Sempre que se pinta uma paisagem tem que detectar a linha do horizonte e fazê-la, tudo ganha vida dali. Quase um mês depois a minha paisagem se encontrava semi-pronta e eu já tinha aprendido a valorizá-la, eu percebia cada suado detalhe que eu havia colocado ali. Sorri ao ver a forma que ela tomou, eu me sentia naquela varanda deitada naquela rede e observando os pássaros fazendo reflexo no rio claro e sem movimento.
Acordei feliz, hoje é terça e eu vou terminar minha tela. O meu pai já havia dito que a queria pra ele, que eu o ia orgulhar e que ele ia pôr a moldura mais simples que encontrasse para que os seus amigos do escritório só percebessem a beleza de minhas pinceladas. Pois é, chegando lá: tudo alagado. Telas, mesas e tintas misturavam-se com o volume da água. Perdi meu trabalho e o orgulho de meu pai, o que eu ansiava tanto. Mas eu tinha uma enorme vontade, a vontade de terminar o que eu havia começado mesmo tendo que REcomeçar. E foi o que fiz.
Tudo sempre tinha um jeito pra mim, e eu era certa disso. Sempre planejei e replanejei a minha vida caso ela nao seguisse o caminho que eu esperava.
Hoje eu amo, e nem sei se tudo isso que eu escrevi tem a ver com esse meu sentimentão. Mas eu amo não só a vida como aquele que me faz viver. Tudo bem, eu aceito ser clichê! Porém eu amo mais, amo acordar de 06:20hs em pleno sábado só pra abrir as portas da minha casa para que você saia pra faculdade, eu amo não fazer nada o dia todo só pra poder te ter toda hora, me sinto mais feliz que qualquer outra pessoa quando você me abraça quando eu ainda durmo e me beija o pescoço, me satisfaço ao ver que você se adapta à minha familia melhor do que eu esperava.. chega a fazer parte dela, gosto de compartilhar meus piores almoços com você, adoro acordar de manhã cedo e ler 2 ou 3 mensagens que você me manda ainda de noite, gosto de ser idiota com você e de falar coisas que ninguém pode ouvir.. coisas que só a gente acha graça.
Confesso um medo: o de acordar tarde no sábado, o de ter a agenda cheia no fim de semana. Tenho medo de ter que apresentar outra pessoa à minha família, o medo de ser séria na maioria do dia e de não ter ninguém pra ouvir meus soluços de choro no meio da noite. Medo de não ter quem cuidar de mim do jeito que eu me acostumei, medo de não ter a quem confessar os meus sonhos, de sentir frio de madrugada, de não ter mais medo.
Eu perdi o contexto, mas não perdi o texto. Tem muita coisa pra ler e só um significado por baixo de tantas virgulas e consoantes: eu não tenho um
plano B caso eu perca você.
Me desespero, acalmo e despeço.
