segunda-feira, 11 de março de 2013

Nostalgia.

Eu gostava de como eu parava para tirar fotos, gostava quando eu eu tinha os piores almoços do mundo, quando eu era surpreendida, quando eu sentia meu sorriso iluminar, quando eu saía e ia ser feliz. Não que hoje eu não pare para me fotografar ou que eu não seja mais feliz, eu gostava de antes. Agora, eu gostava de antes. Quantas pessoas estavam comigo todos os dias, ou na maior parte do tempo, e hoje nem falam mais comigo? Quantas coisas bobas eu já parei de fazer, por não ter mais quem me desse atenção? Quantas vezes eu me policiei para não chorar e acabei fingindo ser forte? Quantos anos se passaram? Quantas horas? Quantos sonhos partiram e, sem virarem realidade, me partiram ao meio? Quantas, quantos? ... Por mais que se tenha passado o tempo e eu sinta falta de quase tudo que foi feito, eu gosto de como o tempo passa. Gosto de como o tempo me traz novos sorrisos e lágrimas. Gosto de como o tempo me faz parar para refletir sobre o tempo. O meu tempo, o nosso tempo. O tempo que nunca tivemos e sempre foi nosso, o tempo que já se foi.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Vontade de tu

Saudade danada
vontade de tu
Fulô de caju
ficou teu perfume
Sou teu vaga-lume
na noite perdido
Por ter confundido
sorrisos tamanhos
Teus olhos castanhos
de sol manhecendo
Teus ventos correndo
a revolução
É meu coração
bandeira vermelha
De sangue assemelha
a cor que desfraldas
É quando me maldas
com tanta distância
A tua flagrância
persiste o caminho
Que sigo sozinho
depois que partistes
Por mais que conquiste
pareço ter nada
Nessa caminhada
que sigo sem tu
Fulô de caju
saudade danada

Nilton Junior

terça-feira, 5 de março de 2013

Flores e céus.

Haviam flores em sua mão. Quando ela foi se encontrar com ele, haviam flores em sua mão. Ela as havia colhido naquela manhã mesmo, estavam com um ótimo cheiro e uma cor viva de gema de ovo. Em um jarro no canto de seu terraço haviam flores amarelas, perfumadas e belas. E ela foi se encontrar com ele no lugar de sempre: numa lanchonete antiga, numa rua antiga de um bairro antigo e que tinha uma varanda antiga que dava para ver um novo céu (sempre). Além das flores ela carregava uma bolsa e um sorriso, na bolsa haviam livros e no sorriso paixão. Calçava os mesmos sapatos de ontem e um vestido amassado que quase nunca usava, era lindo - com flores e corações. E lá estava ele, chegava primeiro sempre e se sentava no mesmo lugar. Ele sempre pedia um café puro e meio frio, abria qualquer página de qualquer jornal e fingia ler. Fingia estar distraído quando ela entrasse no lugar, para que ela notasse que ele deixava de fazer o que estava fazendo só para olhá-la. Ele era lindo! Dentes perfeitos, cabelo impecável e exalando sempre um cheiro carinhoso que a prendia. Ela adorava o jeito em que ele levantava para puxar a cadeira para que ela sentasse, achava lindo quando ele pegava em sua mão e depois gritava ao garçom um suco de laranja - que era o preferido dela -, odiava quando ele voltava a ler o jornal, mas ele sempre se distraia com o barulho que ela fazia bebendo o seu suco. Mas, ele não puxou a cadeira pra ela. Não desta vez. Ela olhou para o céu, constrangida e no momento em que baixou sua cabeça, para puxar o seu próprio assento para perto de si e sentou, olhou para o céu novamente e viu que ele já havia mudado as formas de suas nuvens. Naquela tarde não tinha sido só o céu que havia mudado, ele também mudou. Pediu um café quente com leite, ouvia música em fones de ouvido e realmente estava distraído com aquilo. "Mas porquê ele?" - ela indagou a si mesma, pois jamais passaria em sua cabeça que aquele seu amor pudesse mudar e ser outro. Ele, como sempre, segurou a mão dela, mas não pediu o seu suco. Disse em voz tranquila que iria embora para fora daquela cidade antiga e que iria se encontrar com um novo alguém, alguém esse que o convenceu de mudar. Pediu que ela fosse forte e que a dor que ela vira a sentir ia passar logo, pois ela era sábia. Pena que ela não era mágica. Sentiu a pior dor que já havia sentido e tomou o café que ele deixara pela metade da xícara ao ir embora pela pequena porta de vidro da varanda da lanchonete. Ela não chorou, só bebeu o café quente com leite. Aquilo era a única lembrança que sobrara dele. E ainda haviam flores em sua mão, flores que ela não conseguiu entregar porque ela olhou para o céu e sentiu tudo mudar. E ela murchou com as flores, na mesma rapidez. Nunca mais colheu flores, nunca mais tomara café, nunca mais sorrisos, nunca mais amor.