terça-feira, 5 de março de 2013

Flores e céus.

Haviam flores em sua mão. Quando ela foi se encontrar com ele, haviam flores em sua mão. Ela as havia colhido naquela manhã mesmo, estavam com um ótimo cheiro e uma cor viva de gema de ovo. Em um jarro no canto de seu terraço haviam flores amarelas, perfumadas e belas. E ela foi se encontrar com ele no lugar de sempre: numa lanchonete antiga, numa rua antiga de um bairro antigo e que tinha uma varanda antiga que dava para ver um novo céu (sempre). Além das flores ela carregava uma bolsa e um sorriso, na bolsa haviam livros e no sorriso paixão. Calçava os mesmos sapatos de ontem e um vestido amassado que quase nunca usava, era lindo - com flores e corações. E lá estava ele, chegava primeiro sempre e se sentava no mesmo lugar. Ele sempre pedia um café puro e meio frio, abria qualquer página de qualquer jornal e fingia ler. Fingia estar distraído quando ela entrasse no lugar, para que ela notasse que ele deixava de fazer o que estava fazendo só para olhá-la. Ele era lindo! Dentes perfeitos, cabelo impecável e exalando sempre um cheiro carinhoso que a prendia. Ela adorava o jeito em que ele levantava para puxar a cadeira para que ela sentasse, achava lindo quando ele pegava em sua mão e depois gritava ao garçom um suco de laranja - que era o preferido dela -, odiava quando ele voltava a ler o jornal, mas ele sempre se distraia com o barulho que ela fazia bebendo o seu suco. Mas, ele não puxou a cadeira pra ela. Não desta vez. Ela olhou para o céu, constrangida e no momento em que baixou sua cabeça, para puxar o seu próprio assento para perto de si e sentou, olhou para o céu novamente e viu que ele já havia mudado as formas de suas nuvens. Naquela tarde não tinha sido só o céu que havia mudado, ele também mudou. Pediu um café quente com leite, ouvia música em fones de ouvido e realmente estava distraído com aquilo. "Mas porquê ele?" - ela indagou a si mesma, pois jamais passaria em sua cabeça que aquele seu amor pudesse mudar e ser outro. Ele, como sempre, segurou a mão dela, mas não pediu o seu suco. Disse em voz tranquila que iria embora para fora daquela cidade antiga e que iria se encontrar com um novo alguém, alguém esse que o convenceu de mudar. Pediu que ela fosse forte e que a dor que ela vira a sentir ia passar logo, pois ela era sábia. Pena que ela não era mágica. Sentiu a pior dor que já havia sentido e tomou o café que ele deixara pela metade da xícara ao ir embora pela pequena porta de vidro da varanda da lanchonete. Ela não chorou, só bebeu o café quente com leite. Aquilo era a única lembrança que sobrara dele. E ainda haviam flores em sua mão, flores que ela não conseguiu entregar porque ela olhou para o céu e sentiu tudo mudar. E ela murchou com as flores, na mesma rapidez. Nunca mais colheu flores, nunca mais tomara café, nunca mais sorrisos, nunca mais amor.

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