segunda-feira, 21 de março de 2011

20:35hs.


Subi no ônibus, "Bom dia". Passo na catraca avistando um assento, me acomodo e ponho-me a ouvir minhas músicas num jeito meio autista cotidiano. Três paradas após a que eu apanhei o coletivo vejo subir um casal de velhinhos pela porta do meio, ofereci, gentilmente, o meu lugar no ônibus pra que a senhorinha de cabelos alvos se sentasse... ela se recusou, pois havia havistado um lugar mais próximo que o meu. Ela sorriu e agradeceu complementando com um pedido: você pode deixar ele sentar aí, minha filha? Me levantei automaticamente e deixei o seu marido ocupar o meu lugar! Claro, sentei-me um pouco mais distante de onde eu estava.. só pra poder observar com delicadeza a delicadeza dos dois. Desliguei o Ipod e eu só queria ouvir o barulho dos carros passando rápidos na pista. A moça que sentava do lado da velhinha se levantou e pediu parada e quando a velha senhora ia se exaltar para chamar o seu esposo para dividir o assento.. um humano mal-educado sentou antes que a cadeira esfriasse. Diferente de você, ela se ajeitou no seu assento e aproveitou a viagem. Alguns poucos minutos depois um moço se levantou do assento dos cadeirantes e o velho senhor pegando nos braços tremulos da velhinha sugeriu a ela que fosse se sentar naquele lugar recém-desocupado. Ela levantou e sem conseguir se locomover muito bem sentou-se no local onde o amado pediu. Diferente de você, ele não voltou a sentar-se... se posicionou ao lado dela e no sacolejo do ônibus ficou de pé a viagem inteira. Vez ou outra ele tirava da bolsa de palha que carregava uma garrafa com água, numa dessas vezes com um comprimido para a sua cônjuge. Inquieto ele olhava pelas janelas, segurava a mão de sua amada, olhava todos no ônibus e voltava os olhos cuidadosos para a sua, aparentemente, querida. Essa viagem, para mim, teve bastante valor.. não o ônibus Alto Santa Isabel em si, mas os dois mais velhos passageiros que ali estavam. Só por estarem ali, cuidando um do outro. Eles eram mãe & recém-nascido ao mesmo tempo, eram tanto indefesos quanto fortes para defender. Eles tinham inocência e armaduras, não um pro outro.. mas um pelo outro. E o amor era vivo naqueles cabelos brancos que já se faziam abatidos, naquelas mãos tremulas que seguravam um ao outro, naqueles sorrisos por passarem num lugar, por eles, antes frequentados. Um velho amor, mas não desgastado. Era bonito de se ver como ainda se admiravam com o outro, como havia mais estrada no caminho dos olhares entre os dois. Tirei o meu chapéu para tamanho conjunto de paciência, afeto e equilíbrio visto em, somente, duas pessoas. É para isso que devemos dar valor, não a amores rotulados eternos feitos somente para cumprirem um padrão em orkut, shopping e presentes por obrigação. É disso que falam as músicas que você ouve e corre pra mandar pro seu namorado de 14 anos que não sabe escrever "comprienção/passiencia/equilibril/sacrifissil/confiansa&lassos infiziveis"!

Confesso sim! Sem vergonha de ter vergonha que é assim que quero me ver quando eu começar a pintar os meus cabelos brancos e você pedir que os deixe naturalmente pelo fato de achá-los bonitos em mim.

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